sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Um “raio-x” das ações do Depir de Lauro de Freitas, na visão de Eriosvaldo Menezes


A promoção de políticas para a igualdade racial em um município com uma expressiva presença negra e participação popular

BLOG - Como está a atuação do Depir em Lauro de Freitas?
Eriosvaldo Menezes - Temos ansiedade em fazer as coisas, mas fazer bem feito, respaldados pela lei, para então nossa ação perdurar. Fizemos a 1ª Conferência Municipal da Igualdade Racial, capacitamos 90 professores de acordo com a Lei 10.639 [que obriga a inclusão do ensino da cultura africana e afro-brasileira nos currículos das escolas brasileiras], isto no primeiro ano de governo. Criamos, ainda, a Coordenação de Saúde Negra, realizamos diversos seminários – de educação, doenças sexualmente transmissíveis, anemia falciforme -, inclusive, em julho deste ano, tivemos o 1º Encontro Nacional da Juventude Negra, aqui em Lauro.
Agora, estamos concluindo a capacitação de mais 135 professores e em novembro vamos inaugurar a Casa da Capoeira e das Baianas de Acarajé. No local, crianças farão cursos voltados à cultura afro.
Lauro de Freitas é uma cidade que 79,8% de sua população é afro-descendente (dado do IBGE). Além disso, a Depir contabilizou 383 terreiros de candomblé na cidade. Então, precisamos agir.

BLOG - Como inserir a sociedade na luta contra os crimes raciais?
Eriosvaldo Menezes - A melhor forma para a sociedade participar do combate a estes crimes é, antes de tudo, inseri-la nas discussões das ações que pretendemos realizar. Quando temos uma proposta nova, aqui no Depir, chamamos a sociedade, as organizações não-governamentais que atuam na área da igualdade racial, para participar. Levamos cidadania para as pessoas e elas sentem-se responsáveis pelo processo de luta contra os crimes raciais.

BLOG - Quais as ações feitas pelo Depir de Lauro de Freitas que têm surtido efeitos positivos?
Eriosvaldo Menezes - A resposta que temos dos terreiros de candomblé, na participação das tomadas de decisão de nossas ações, é muito importante. Outro ponto é o interesse dos professores em ensinar a cultura do povo negro nas escolas.

BLOG - Como órgãos especializados em políticas para a inclusão racial, como o Depir, podem dialogar com os meios de comunicação a fim de alcançar resultados mais abrangentes? Isto ocorre? Se não, como poderia ser potencializado?
Eriosvaldo Menezes - Precisa ser potencializado, com certeza. A divulgação na mídia de nossas ações em Lauro de Freitas ainda é lenta. Precisamos nos mostrar mais. Porém, a prioridade da prefeitura é gastar recursos em comunidades carentes, necessitadas de uma infra-estrutura básica. Aí, a publicidade acaba ficando em segundo plano.

BLOG - Na sua opinião, como está nossa sociedade hoje quanto à questão da igualdade racial?
Eriosvaldo Menezes - Temos a felicidade de ter como Presidente da República o Lula. O governo dele tem investido na inclusão de jovens, principalmente negros, nas universidades, o analfabetismo tem diminuído também. Com isso, a sociedade tem acordado, está cobrando mais seus direitos. Então, toda essa inserção dos jovens negros nos meios acadêmicos faz surgir um novo olhar sobre a sociedade. Pois, a educação é a base de tudo, e, nós queremos transformar a sociedade através da educação.

* Eriosvaldo Menezes é o diretor do Departamento de Promoção para a Igualdade Racial de Lauro de Freitas / BA.
Foto: Internet

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Thais Zimbwe fala sobre os desafios do Enjune e da importância do diálogo com os gestores



Juventude Negra realiza encontro nacional (27, 28 e 29 de julho) e articula com Gestores de Promoção da Igualdade Racial

BLOG - Como se deu o processo de articulação para a realização do Enjune?
Thais Zimbwe -
O Enjune iniciou seu processo de mobilização nacional efetivamente em março de 2006, onde foram realizadas dezenas de reuniões nacionais que definiram toda a concepção do projeto do Encontro, com ampla participação da juventude negra que definiu todo o perfil do encontro. A participação na etapa nacional se deu a partir de etapas estaduais preparatórias, que debateram os eixos temáticos que conduziram também o debate no encontro nacional.

BLOG - Quantos jovens foram envolvidos no processo?
Thais Zimbwe -
Na etapa nacional foram registradas a presença de 620 jovens, além de convidados(as), observadores(as), jornalistas, convidados(as). Estima-se que no processo todo, cerca de de 5 mil jovens estiveram envolvidos.

BLOG - Quais foram os grandes desafios?
Thais Zimbwe
- Com certeza a mobilização nacional e o apoio político para a realização. Diversas manifestações expressivas oriundas dos movimentos juvenis negros já realizaram processos, entretanto, o Enjune surge com um perfil ousado, inovador e de grande proporção.
Fortalecer os grupos ativistas que já realizam ações de debates de políticas públicas e agregar outros atores e atrizes sobre esta perspectiva foi um grande passo. Hoje, percebemos que a juventude negra, mesmo discordando de alguns processos de participação política nacional, compreende a importância de atuação nestes espaços com forma de garantia de debate e inclusão de suas demandas e ações.


BLOG - Os gestores(as) de Promoção da Igualdade Racial dos diferentes estados e municípios colaboraram? Como?
Thais Zimbwe -
Durante o processo de diálogo com parceiros potenciais, todos os estados onde possuem organismos integrantes ao Fippir, foram realizadas reuniões e convites para a participação e construção do processo, além do apoio político para a realização.
O Enjune foi realizado no município de Lauro de Freitas, as relações constituídas para o apoio ao processo foram encaminhadas com o Departamento de Promoção da Igualdade Racial de Lauro de Freitas, por meio de Eriosvaldo Menezes, que possibilitou toda a infra-estrutura de realização do encontro, entre outras coisas.
Nas etapas estaduais também houveram ações conjuntas entre estes(as) gestores(as), que impulsionaram e possibilitaram a realização de várias etapas municipais e estaduais pelo país.


BLOG - Foram tiradas estratégias para que a juventude possa estar mais articulada com os organismos de promoção da igualdade racial e de juventude?
Thais Zimbwe -
As relações constituídas durante o processo de concepção e realização do Enjune, com estes(as) gestores(as) de políticas de promoção da igualdade racial e de juventude foram possibilitadas também através do apoio institucional da Seppir e da Secretaria Nacional de Juventude para a realização do Encontro.
Além disso, os estados participantes agora estão em processo de consolidação dos Fóruns Estaduais de Juventude Negra, um dos produtos do Enjune, onde a continuidade do diálogo e parcerias com estes órgãos são fundamentais.

* Thais Zimbwe é jornalista e foi da coordenação nacional do Encontro Nacional da Juventude Negra

* Foto de Ierê Ferreira.
http://www.enjune.com.br